quarta-feira, 18 de junho de 2008

"Os hackers e o software livre sempre andaram juntos"

Entrevista: Gabriella Coleman, antropóloga da Universidade de Nova York

18 de junho de 2008 | N° 15636

Adeptos do software livre e hackers têm em comum muito mais do que o gosto pela tecnologia. Ambos partilham o ponto de vista de que a informação deve ser livre e disponível para todos. As similaridades entre os dois movimentos, cujas trajetórias se entrecruzaram nas duas últimas décadas, são objeto das pesquisas da antropóloga Gabriella Coleman (foto), professora da Universidade de Nova York, que atualmente está produzindo um livro sobre este tema.

Na última sexta-feira, quando esteve em Porto Alegre para palestrar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Gabriella conversou com o ZH Digital. Confira os principais trechos.

ZH Digital - Para a maioria das pessoas, o termo hacker ainda traz uma conotação negativa. Qual a contribuição positiva dos hackers para a sociedade?

Gabriella Coleman - O conceito de hacker é complexo, mas, geralmente, a atividade exercida por essas pessoas está associada ao desejo de aprender, conhecer e melhorar a tecnologia. É algo importante. Os hackers que abriram os códigos de acesso de vários hardwares permitiram às pessoas usarem esses aparelhos de diferentes maneiras. Por exemplo, você não precisa mais usar o iPhone só na AT&T (operadora de telefonia americana com a qual a Apple assinou acordo de exclusividade). O caso do iPhone é interessante. A Apple lançou o aparelho e logo ele foi "hackeado". A empresa tem agora uma nova versão que é mais difícil de ser invadida, mas eventualmente alguém vai conseguir. Esse é o ciclo que envolve a atividade dos hackers.

ZH - Quem é mais familiarizado com tecnologia utiliza o termo hacker para se referir àqueles que invadem os sistemas sem intenção de causar danos, enquanto a palavra cracker é reservada aos criminosos virtuais. Essa distinção ainda é válida?

Gabriella - Sem dúvida, há esta distinção, mas alguns hackers a questionam. Às vezes, você precisa invadir um sistema para aprender a respeito. Mesmo que não esteja danificando a propriedade de alguém, você ainda está fazendo algo ilegal. Claro que é diferente de roubar dados de cartão de crédito - isso definitivamente é "cracking". Mas veja o caso de Kevin Mitnick (hacker que invadiu sistemas de empresas e do governo dos EUA, foi preso nos anos 1990 e hoje atua como consultor). Alguns diriam que ele não roubou nada, então não poderia ser um cracker. Outros diriam que ele invadiu um sistema, o que é ilegal, então é um cracker. Há uma ambivalência quando usamos o termo hacker ou cracker. Essa distinção não é tão clara assim.

ZH - Qual o ponto em comum entre os hackers e a comunidade de software livre?

Gabriella - Em 1984, o jornalista Steven Levy lançou um livro chamado Hackers, no qual define qual seria a ética desse grupo. Para eles, a informação deve ser livre. Hackers e software livre se aproximam por esse comprometimento com a liberdade de informação. Acho que Richard Stalmann, criador do software livre, pensou que o direito autoral e as patentes estavam matando a cultura hacker. Então disse: "Quero salvar a cultura de hacker, aqui está o software livre". De certa forma, as atividades dos hackers e a da comunidade do software livre sempre andaram juntas, mas só mais recentemente a grande mídia tem usado os dois termos de forma mais próxima.

ZH - A senhora diria que ambas as comunidades estão na vanguarda da discussão sobre propriedade intelectual na internet hoje?

Gabriella - Sem dúvida. Muita das tecnologias que esses grupos querem usar têm licenças e patentes, então eles precisam compreender bem as leis para usá-las. Ambos são muito bons em comprender as leis, criticá-las e reformulá-las. A prática do software livre é uma prática tanto legal quanto técnica.

ZH Digital - Qual a principal diferença entre as comunidades de software livre nos Estados Unidos e no Brasil?

Gabriella - Uma das diferenças é que aqui há mais gente envolvida. Não temos eventos nos EUA que reúnam mais de 5 mil pessoas (referindo-se ao Fórum Internacional Software Livre). Talvez os governos daqui tenham percebido esse interesse e dado importância ao assunto. Nos EUA, mesmo que CIA e Nasa usem software livre, o discurso para o público é "vamos deixar o mercado achar uma solução." No Brasil, a mobilização das pessoas e o apoio governamental criaram um ambiente social mais favorável.

Fonte: Zero Hora.

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