terça-feira, 9 de outubro de 2007

Ézyo Lamarca fala ao Blog Além das Redes

Entrevista para o blog do Projeto Além das Redes de Colaboração

Os artistas [do tecnobrega] entendem que vão ganhar dinheiro com os shows e não com a venda de CD’s. Eles apelidam os camelôs [do Pará], carinhosamente, de “pirateiros”

Palestrante no Seminário Além das Redes em Porto Alegre e em Natal, Ézyo é fundador do Grupo Linux Pai d´Égua, presidente da AUSLA (Associação dos Usuários de Sistemas Livres e Abertos), diretor adjunto da SUCESU-PA (coordenador do Grupo de Inclusão Digital) e um dos principais divulgadores e promotores do Software Livre dentro do Estado do Pará, tendo palestrado e ministrado treinamento em vários eventos nacionais: Semana de Capacitação (2004/DF), EUSLA (2005/AM), FESLA (2005/AP) e FISL (2006/RS). Atuou como engenheiro de redes da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos sendo atualmente analista de redes do SERPRO cedido para a PRODEPA, ocupando a função de assessor de Software Livre da presidência da empresa.

Tendo como terra natal o lugar onde nasceu um movimento musical chamado tecnobrega, Ézyo acredita que é necessário aproximar a cultura do software livre. Segundo o antropólgo Hermano Vianna o tencobrega “parece um Kraftwerk de palafita”. E não é um movimento pequeno, em Belém, a cada ano são lançados mais de 2.000 discos diferentes do estilo, em muitas gravadoras independentes, e distribuído, principalmente, por camelôs, que, segundo Ézyo, são “carinhosamente chamados de pirateiros”.

Assim se formam novos movimentos culturais, fora do mainstream, fora dos círculos tradicionais de distribuição, contanto principalmente com os recursos digitais, com a facilidade recombinante da rede, com a antropofagia digital que gera novas produções, novos conceitos de arte.

Nesse sentido, a técnica, a arte e o público, fazem parte de um mesmo todo, da mesma teia cultural.

Blog: Como nasceu a associação que vc faz parte?

Ézyo Lamarca da Silva: foi uma evolução do Grupo de Usuários criado em 2001, o Linux Pai d’Égua, com o tempo percebemos a necessidade de dar um caratér mais formal para nossa atuação. Foi o primeiro grupo de Linux do Pará. Surgiu como lista do Yahoo!, depois que eu li na revista PC Master do mês de setembro de 2001, o incentivo a divulgação do endereço do grupo de usuários de Linux de cada local do Brasil. Antes havia nenhum grupo do Norte do Brasil até então naquele chamado “diretório Linux”. Logo naquele ano fizemos um encontro presencial. No ano seguinte realizamos o I Fórum Paraense de Software Livre, num auditório da Universidade Federal do Pará. Desde então, fizemos 5 fóruns, vários install fest’s, encontros de lazer, palestras em universidades, etc.

Blog: Como conheceu o Movimento do Software Livre?

Ézyo Lamarca da Silva: na época em que fazia faculdade de Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Pará e fiz meu TCC focando segurança, filtro de pacotes (ipchains na época) no Red Hat 6.2.

Blog: E como se dá a relação da cultura e o debate técnico no Pará?

Ézyo Lamarca da Silva: sempre tivemos a preocupação de levar o SL para fora dos meios mais técnicos. Realizamos install fest’s em grandes lojas de informática instalando GNU/Linux para leigos. No último fórum de SL que realizamos em Belém, em junho deste ano, tivemos a participação de palestrantes médicos, sociólogos, educadores, quadrinhistas e músicos falando de SL. O objetivo é fazer eventos para públicos específicos: professores, músicos, médicos, engenheiros, etc

Blog: Em que momento houve uma convergência entre o Creative Commons, a associação e o TecnoBrega… além de outros movimentos

Ézyo Lamarca da Silva: No fórum deste ano, montamos uma programação cultural que envolvia DJ’s de Tecnobrega, músicas livres, etc. Infelizmente, por falta de recursos, tivemos que reduzir drasticamente essa programação cultural. Também pudemos divulgar o trabalho de um quadrinhista regional, criador da Turma do Açaí [Rosinaldo Pinheiro], que cria esses quadrinhos em ferramentas livres, como Gimp e Inkscape. Também foram realizadas palestras sobre produção musical e de vídeo utilizando ferramentas livres. Para tanto, contamos com a ajuda do Hélio Castro (Mandriva) e do Tiago Melo (Comunidade SOL / AM).

Blog: E como o digital alcança o mundo real, no que tange a distribuição de músicas por camelos, como os artistas locais percebem essa forma de distribuição alternativa?

Ézyo Lamarca da Silva: Quanto a distribuição de CD’s pelos camelôs, existe uma certa simbiose. O artista / grupo que está começando ou mesmo que não tem tanto destaque entrega pessoalmente aos camelôs os CD’s que muitas vezes ele mesmo produz no seu estúdio doméstico. Os artistas entendem que vão ganhar dinheiro com os shows e não necessariamente com a venda de CD’s. Eles apelidam os camelôs, carinhosamente, de “pirateiros”.

Blog: E isso se alterou a partir da internet e das licenças alternativas?

Ézyo Lamarca da Silva: Na sua grande maioria não, há um senso comum em pensar que tudo é pirataria. No fórum começamos o trabalho de divulgação das licenças livres, tanto pros músicos, quanto pra quem faz quadrinhos ou mesmo o profissional liberal que não é da área de informática mas que desenvolve programas para uso próprio ou dos seus pares de profissão.

Blog: De forma que o software livre pode contribuir para a redução da exclusão digital e para a emancipação social, para a divulgação cultural, etc?

Ézyo Lamarca da Silva: Mostrando que o valor maior está no trabalho produzido, quer seja ele um software, uma música, um quadrinho, etc., e não na forma como ele é disponibilizado, ou seja, não é porque um CD é produzido no estúdio doméstico que ele não pode ter uma qualidade artística excelente. O fato de um software ou uma música ser feito e distribuído por uma grande corporação não é garantia de qualidade a toda prova!. Nem todo o software, música, quadrinho ou o que quer que seja, deve ser produzido única e exclusivamente para atender milhões de pessoas e gerar milhões em receita. Há públicos específicos para diversos softwares, músicas, quadrinhos, e também há muita produção, o problema é que não se encontram, um não conhece o outro. Nesse sentido, acredito que a filosofia do software livre pode ajudar a aproximar esses dois mundos.

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